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Tire...

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Tire as velhas algemas... Tire as amarras mentais... Nada coloque no lugar além de liberdade! Tire as terríveis verdades alheias... Tire tudo que traga dúvidas... Nada coloque no lugar além de tempo! Tire as crenças antigas... Tire as cansadas certezas... Nada coloque no lugar além de paz! Tire as pressas ultrapassadas... Tire as angústias antecipadas... Nada coloque no lugar além de sonhos! Tire a necessidade do perdão... Tire o hábito estúpido de julgar... Nada coloque no lugar além de compreensão! Tire a cruel indiferença ao outro... Tire o velho olhar sem ver... Nada coloque no lugar além de amor! Foto: Ouro Preto, Jan/2018

A régua do tempo

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Esse texto "exige" uma abstração durante a leitura.  "Imagine que exista vida sobre a terra, sim, mas nenhuma das formas existentes são humanas; então, para que serve o tempo? Não seria ele mais uma das invenções da humanidade?" O amanhecer: a presença da luz! "Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga." ( Mia Couto , escritor moçambicano, 1955-) Em uma primeira análise, podemos considerar o tempo como construção subjetiva, humana. Esse conceito, de forma simplificada, existe desde os tempos dos filósofos gregos e foi, mais tarde, firmemente fixado por  Santo Agostinho (filósofo argelino; 354-430) ; ele dizia: " O que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei ." Eis a conotação subjetiva. Já para  Hume   (filósofo britânico; 1711-1776) , o tempo só existe se for considerado como registro da ligação entre um evento e outro no espaç...

Envelhe(s)er

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Primeiro, e rapidamente, explico: envelhecer se escreve com "c", evidentemente. O trocadilho é apenas para explorar o tema de hoje: envelhecer "sendo"! Muitos autores escreveram sobre o assunto, por observação ou por experiência própria. E é muito particular a visão da velhice sobre si mesmo ou sobre o outro. Às vezes temos o privilégio de viver as duas coisas ao mesmo tempo: envelhecer vendo outros envelhecer. Na verdade é uma situação natural, pois passamos pelas 24 horas de cada dia  igualmente, ou seja, todos envelhecemos a partir do momento em que nascemos, pelo menos cronologicamente! Se você que me lê me conheceu exatamente há 30 anos, hoje estou mais velho exatamente 30 anos... E você também! Mas o que muda então? Muda, no tempo, a forma como olhamos para a velhice, nossa e do outro, a maneira como formamos a imagem do outro, e também a nossa. Muda a forma como construímos nosso envelhe(s)er!!! O " aspecto particular pelo qual um ser ou um o...

Quantos somos?

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Observei, assim distraidamente, uma pétala desbotada, no meio de tantas outras pétalas, todas arrancadas, pelo vento e pelo tempo, da mini-roseira que enfeita meu jardim. Caída sobre cavacos de madeira, sabe-se lá por qual motivo, a imagem tocou-me na lembrança de um trecho de um dos muitos textos de Fernando Pessoa presentes no incrível e incomparável Livro do Desassossego: Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio ― uma alteração da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida , a voz do outro lado do muro com os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada pressão indefinida. Vivo de impressões que me não perten...

Uma lembrança querida...

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" E quando a noite vai se agonizando no clarão da aurora... " nos encontramos novamente: eu e a insônia! Juntos repassamos, em uma daquelas visitas, memórias de tempos idos e que se alojam no fundo da alma... Então, sem causa aparente, recuperamos passagens de bem-querer firmemente gravadas. Vem a saudade e faz-nos companhia... Lembrei-me hoje das noites na fazenda de meu avô. Em férias de escola, ficávamos eu, ele e minha avó, sozinhos em uma fazenda onde, à época, não havia nem energia elétrica nem muitas outras coisas, mas era muito bom... Ainda garoto tinha medo daquela solidão, que depois aprendi amar. O medo surgia quando chegava a escuridão da noite, de resto era só aventura, só alegria. A casa era boa, mas simples. Não tinha forro e, por isso, era possível se comunicar através dos diferentes cômodos. Para aplacar o meu medo, meu avô, sabiamente, providenciava toda noite uma lamparina a querosene, apenas com o pavio molhado, e a acendia para que tivesse claridade no qu...

Talvez Ouro Preto...

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Relendo dias atrás alguns poemas de Fernando Pessoa , no livro Cancioneiro , encontrei este, dedicado certamente a um amor não correspondido. Mas fiquei com a impressão de que poderia ser um amor por um lugar, lembrado ao fim de uma tarde qualquer... Para o poeta não sei que lugar seria; para mim talvez Ouro Preto... Deve ser saudade da terra amada e do tempo amado! [No ouro sem fim da tarde morta]  No ouro sem fim da tarde morta,  Na poeira de ouro sem lugar  Da tarde que me passa à porta  Para não parar,  No silêncio dourado ainda  Dos arvoredos verde fim,  Recordo. Eras antiga e linda  E estás em mim...  Tua memória há sem que houvesses,  Teu gesto, sem que fosses alguém,  Como uma brisa me estremeces  E eu choro um bem...  Perdi-te. Não te tive. A hora  É suave para a minha dor.  Deixa meu ser que rememora  Sentir o amor,  Ainda que amar seja um receio,  Uma lembrança falsa e vã,...

Solidões

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Mário Quintana , um observador meticuloso do cotidiano, escreveu certa vez: " Sempre  me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas...". Em   uma interpretação   minha , bem   particular , creio  que tal pensamento reflete de alguma maneira uma espécie de solidão que sentia o poeta. Gosto da frase e, mesmo que não seja esta a intensão dele, é sobre solidão que atrevo-me a discorrer hoje. Identifico pessoalmente, de forma bem simples, duas formas de solidão. Vou dar nomes a elas, mas sem pretensão de fazer aqui um tratado sobre o assunto. É o que sinto, então escrevo.  O primeiro tipo de solidão é a solidão existencial , sob a perspectiva da nossa existência humana, podendo dividir-se em coletiva  ou individual . A solidão existencial coletiva  refere-se, obviamente, a um tipo de solidão que é experimentada por um grupo de pessoas, conscientemente ou não, com alguma afinidade que o isole dos demais grupo...

Uma madrugada

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É madrugada, sono se foi... No exato momento em que me acomodo confortavelmente na poltrona do meu pequeno escritório, onde estou cercado de livros, objetos e muitas lembranças, o smartphone começa tocar, aleatoriamente, a música El pescador de perlas , numa singela e bela versão de Mila Khodorkovsky. E o pensamento sai de mim, vai para não sei onde... É uma praia e me espera um barco. Apropriado. Sinto uma sensação de e star num lugar conhecido, mas que nunca estive, fazendo alguma coisa cotidiana, mas que nunca fiz! Mesmo assim, sou, nesta situação, capaz de me ver e ver o que ocorre! O pensamento tem disso: por vezes nos escapa e faz com que possamos olhar para nós mesmos. É neste momento, raro e curto, que, saindo de nós, nos observamos sem filtro, nos enxergamos sem máscara, nos ouvimos sem acompanhamentos. Somos nós a nos ver nus! E precisamos disso, como assinalou brilhantemente José Saramago : É preciso sair da ilha para ver a ilha! O sentido dado à frase pelo poeta talvez seja...

Colecionadores de ausências

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Pouco a dizer ! Sobre as ausências, disse  Drummond : Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim. Talvez este seja o grande problema dos humanos: nos valorizamos em demasia frente à natureza. Somos frágil, somos pó. E se do pó viemos, a ele voltaremos! Nada bíblico, apenas uma constatação irrefutável. Quando e onde ocorreu algo diferente disso? Depois da morte, ficam, por algum tempo, as lembranças boas de quem partiu! E elas devem nos confortar completamente! Sentimos saudades,  somos colecionadores de ausências! É o preço da existência! Do pó ao pó Que se cumpra, ao final de cada jornada, Quando o entardecer ficar permanente, A ordem última expressa pela vida... Que tudo torna...

Palavra

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É estranho, mas ocorre com uma frequência que por vezes assusta. Para quem gosta de escrever, exibir ideias conexas, juntar pensamentos, seus e de outros, quando as palavras somem, e por algum tempo nada se expressa com clareza, sobra um desespero aterrorizante. É, penso, parecido com a situação de um centro-avante que por muitas partidas de futebol não consegue fazer gols.  Fico imaginando o motivo, mas nada de concreto me ocorre. Talvez seja inquietações da alma impedindo que se organizem os pensamentos; ou, sentido oposto, é a calmaria da alma que não produz coisa alguma, refletindo bem a expressão de Rubem Alves : " ostra feliz não faz pérolas "! Tenho dúvidas: será mesmo preciso estar triste, aflito ou incomodado, para produzir pensamentos nobres? Não sei... Mas me consolo quando vejo que entre os grandes mestres da escrita isso também ocorre (ou ocorreu), como lindamente descrito por Drummond na canção denominada " O lutador ": Lutar com palavras é a luta mai...