ESTRADAS E DESVIOS
“Pois minha imaginação não tem estrada. Eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvios e de desver.” (Manoel de Barros) Houve um tempo em que meus dias começavam com uma missão simples: levar o almoço de meu pai, agricultor arrendatário, até o lugar onde estivesse trabalhando. Eu tinha por volta de dez anos e a responsabilidade cabia inteira sobre meus ombros de menino. A marmita seguia firme em minhas mãos; o relógio, invisível, marcava a urgência de voltar antes das onze para tomar banho, almoçar e ir à escola. Chovesse ou fizesse sol, aquele percurso de alguns quilômetros era parte da vida, como se a infância também tivesse suas obrigações silenciosas. Para chegar ao Sítio do Joãozinho havia dois caminhos. Um era curto, reto e atravessava um pasto onde, muitas vezes, o gado me esperava como um desafio maior do que realmente era. O outro fazia um desvio pelo cafezal do senhor Pedro Redondo, homem cujo sobrenome sempre me despertou curiosidade. Entre o medo e a tranquili...