A morte e o que permanece
Filha querida, Há uma estranha delicadeza na morte. Embora a temamos desde cedo, ela também nos ensina a medir o valor das horas. Talvez seja por isso que vivamos tentando esquecê-la, enquanto ela, silenciosa, jamais se esquece de nós. A morte não marca apenas o fim; muitas vezes, revela o verdadeiro tamanho da vida. Olavo Bilac, em sua poesia marcada pela beleza e pela permanência da arte, escreveu: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!". Embora esses versos não tratem diretamente da morte, lembram que há realidades invisíveis aos olhos apressados. Assim também é a ausência de quem parte: não se vê, mas continua ressoando como uma estrela cuja luz permanece viajando muito depois de seu desaparecimento. Sabe filha, a morte tem esse curioso poder de transformar lembranças em presença. Um banco vazio na varanda, uma xícara esquecida sobre a mesa, um abraço seu ou um perfume que insiste em visitar a memória passam a falar mais alto do que muitas pala...