O passar dos anos não é um fenômeno barulhento. Ele acontece em silêncio, como quem ajeita a casa sem querer acordar ninguém. Quando percebemos, já não somos os mesmos — mudaram os gestos, os sonhos, as urgências. Aquilo que antes parecia eterno se revelou breve, e o que era distante agora mora dentro de nós, como memória viva.

Há uma certa melancolia inevitável nisso tudo. Como escreveu Drummond, “no meio do caminho tinha uma pedra”, e talvez o tempo seja essa pedra constante: ora obstáculo, ora marco. Ele nos interrompe, nos obriga a olhar para trás, mas também nos ensina a seguir, mesmo com o peso das lembranças.

Graciliano Ramos, com sua secura honesta, parecia compreender bem essa travessia. Em suas palavras duras e precisas, a vida nunca foi enfeitada demais. O tempo, para ele, era quase um chão áspero: não havia como escapar, apenas aprender a pisar com mais firmeza, mesmo que os pés doessem.

E então vem Fernando Pessoa, com sua multiplicidade inquieta, a nos lembrar que o tempo também nos fragmenta. “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, escreveu ele — e talvez seja isso: ao longo dos anos, acumulamos versões de nós mesmos que não chegaram a existir, mas que ainda vivem em algum canto da alma.

O curioso é que, apesar disso, seguimos. Há uma espécie de coragem silenciosa em continuar vivendo, mesmo sabendo que o tempo não para, que não há retorno possível. Cada ano que passa nos afasta do que fomos, mas também nos aproxima de uma compreensão mais profunda do que somos.

Com o tempo, aprendemos a valorizar o que antes passava despercebido. Um gesto simples, uma conversa breve, um instante de paz — tudo ganha outra dimensão. O que antes era comum torna-se raro, e o que era urgente perde a importância. O tempo nos ensina a escolher melhor, ainda que nem sempre acertemos.

Mas há também beleza nisso tudo. O passar dos anos não é apenas perda; é também acúmulo. Acúmulo de histórias, de afetos, de aprendizados. Mesmo as dores, com o tempo, encontram um lugar mais sereno dentro de nós. Elas não desaparecem, mas deixam de gritar.

No fim, talvez o tempo seja menos um inimigo e mais um mestre exigente. Ele nos tira muito, é verdade, mas também nos dá perspectiva. E assim seguimos, entre memórias e expectativas, tentando fazer as pazes com o inevitável — enquanto os anos, discretos, continuam passando.

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