O passar dos anos não é um fenômeno barulhento. Ele acontece em silêncio, como quem ajeita a casa sem querer acordar ninguém. Quando percebemos, já não somos os mesmos — mudaram os gestos, os sonhos, as urgências. Aquilo que antes parecia eterno se revelou breve, e o que era distante agora mora dentro de nós, como memória viva. Há uma certa melancolia inevitável nisso tudo. Como escreveu Drummond, “no meio do caminho tinha uma pedra”, e talvez o tempo seja essa pedra constante: ora obstáculo, ora marco. Ele nos interrompe, nos obriga a olhar para trás, mas também nos ensina a seguir, mesmo com o peso das lembranças. Graciliano Ramos, com sua secura honesta, parecia compreender bem essa travessia. Em suas palavras duras e precisas, a vida nunca foi enfeitada demais. O tempo, para ele, era quase um chão áspero: não havia como escapar, apenas aprender a pisar com mais firmeza, mesmo que os pés doessem. E então vem Fernando Pessoa, com sua multiplicidade inquieta, a nos lembrar...
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