Caminhos
Que caminhos seguiremos no minuto seguinte, na hora seguinte, no dia ou ano seguinte? Difícil responder... Podemos imaginar que os passos são fruto do acaso ou de um destino pré-estabelecido. Ou nada disso! No caso do destino, alguém preparou, pois da infância não vislumbramos passos a perder de vista. É uma discussão infrutífera, na minha opinião, querer chegar a um consenso: temos um destino, já prontinho, ou traçamos nosso caminho com as escolhas, inicialmente não nossas, e suas consequências? Particularmente, fico com a última opção... Mas, calma, respeito a primeira... Mais que isso, respeito quem nela acredita.
Talvez a grande inquietação humana não seja descobrir o caminho, mas compreender quem é o caminhante. Antes de qualquer destino, existe uma consciência que hesita, deseja, teme e escolhe. E toda escolha, por menor que pareça, modifica não apenas o rumo da viagem, mas também aquele que viaja. Caminhar é, sobretudo, transformar-se.
Fernando Pessoa escreveu que "viver é ser outro". A frase parece dissolver a ideia de uma identidade fixa, lembrando-nos de que somos uma sucessão de versões de nós mesmos. O indivíduo que desperta hoje já não é exatamente aquele que adormeceu ontem. Assim, talvez o destino não seja um ponto de chegada, mas o contínuo exercício de tornar-se.
Drummond, com a serenidade de quem escutava o silêncio das palavras, eternizou a pedra no meio do caminho. Costumamos enxergar os obstáculos como interrupções da vida, quando talvez sejam a própria vida em sua linguagem mais profunda. A pedra não impede apenas a passagem; ela convida à pausa, à reflexão e ao reconhecimento dos próprios limites. Sem ela, correríamos o risco de atravessar a existência sem realmente habitá-la.
Adélia Prado, por sua vez, parece nos ensinar que o absoluto se esconde nas pequenas coisas. Há uma metafísica delicada no café compartilhado, na janela aberta ao amanhecer, no quintal depois da chuva. O eterno não está distante de nós; manifesta-se discretamente na simplicidade de um instante vivido com inteira presença.
Talvez o equívoco esteja em imaginar que a vida seja um problema a ser resolvido. Ela se assemelha mais a um mistério que se revela apenas a quem aceita habitá-lo. A razão ilumina parte do caminho, mas há trechos que somente a experiência, o afeto e até mesmo a dúvida conseguem atravessar. Nem tudo o que importa pode ser explicado; algumas verdades apenas podem ser vividas.
O tempo, esse artesão invisível, dá novo significado às nossas escolhas. Aquilo que hoje parece erro poderá revelar-se aprendizagem; o que julgamos definitivo pode mostrar-se apenas uma estação da travessia. Talvez seja essa a maior sabedoria: compreender que o sentido não antecede o percurso, mas nasce dele, passo após passo.
Ao fim, continuo acreditando que somos autores de boa parte da nossa caminhada, embora jamais escrevamos sozinhos. Há circunstâncias que nos precedem, encontros que nos transformam e mistérios que jamais decifraremos. Ainda assim, enquanto houver consciência para escolher, coragem para recomeçar e humildade para aprender, haverá também liberdade. E talvez seja exatamente nesse delicado equilíbrio entre o que recebemos e o que construímos que resida o verdadeiro sentido da existência.
Jul/2026
Maravilhoso!!
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