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"Deus falando com voce", o Deus de Spinoza

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"Para de ficar rezando e batendo no peito. O que eu quero que faças é que saias pelo mundo, desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti. Para de ir a estes templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nas praias. Aí é onde eu vivo e expresso o meu amor por ti. Para de me culpar pela tua vida miserável; eu nunca te disse que eras um pecador. Para de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos teus amigos, nos olhos de teu filhinho... não me encontrarás em nenhum livro... Para de tanto ter medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem me incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor. Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de n...

A palavra mágica da alma

De repente, como se um destino mágico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anônima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou. Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento.  Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o ator, mas os gestos dele. Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momen...

Veredas

Dia desses (tempo já faz), retornando de um trabalho no campo, observei que o sol lentamente entrava em ocaso. E lá bem distante, na linha limite entre o céu e a terra, começavam uma sucessão de cores impressionante: o laranja dava lugar para o vermelho sangue; o azul escuro era substituído por um roxo mórbido e os tons amarelos misturavam-se em diferentes intensidades com o branco de algumas poucas nuvens, que reluziam feito ouro por ação do resto de sol. Tudo em faixas quase horizontais, finas, que trocavam de lugar a cada piscada, uma mistura de cores impressionante. Um espetáculo. E lembrei-me, sem saber o motivo, da expressão de João Bosco e Aldir Blanc, na música O equilibrista : E nuvens lá no mata-borrão do céu Chupavam manchas torturadas... Estacionei rápida e cuidadosamente em um lugar ligeiramente alto da estrada e coloquei-me a observar, a contemplar, a saborear a beleza do instante. Sim, instante... Mesmo tendo pedido aos deuses da natureza que perpetuassem aquele momento,...

O assunto

É uma noite normal depois de um dia de trabalho... Mas hoje o sofá me incomodou e procurei a poltrona do escritório, onde me encontro agora. Para quem gosta de expressar ideias existem dias difíceis: nada que é pensado consegue ser traduzido em uma sequência de palavras que faça algum sentido para quem as lê posteriormente. Às vezes até acontece de uma luz "solar" brilhar sobre algo, mas surge inesperadamente, entre o sol que ilumina e o assunto iluminado, uma nuvem e tudo volta a estaca zero. Cada um que escreve, ou tenta, tem lá suas maneiras de enxergar através de nuvens. Por exemplo, buscar inspiração em alguma coisa escrita ou falada por outra pessoa, seja ela um poeta, um escritor, o senhor que limpa a praça, a senhora que se encontra toda semana na feira, etc. Alguma frase, algum poema que fique preso à nossa memória e que suscita o assunto.  Hoje abri um antigo livro de Fernando Pessoa   (Obra Poética), e encontrei ao acaso o poema a seguir (parte I), originalmente pu...

9 anos

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Saudades! Saudades do cheiro, Saudades do beijo, Saudades do "oh pai!", Saudades do abraço! Saudades de você!!!    SET, 16, 2024

Saudade de um abraço

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Nunca encontrei um sentido para a morte que verdadeiramente a justificasse e provocasse em mim o justo apaziguamento da aflição gerada na alma nesses momentos. Talvez, apenas talvez, uma única resposta seria o fato, inequívoco, que a morte finaliza a vida e, portanto, sendo capaz de ato tão expressivo - o de colocar limite em algo tão esplêndido e privilegiado - dê à vida seu verdadeiro valor, seu verdadeiro sentido, sua verdadeira verdade. É de pensar, sempre que alguém se vai, para qual lugar se vai depois de consumada a morte. Que lugar é esse? É irremediável acrescentar algo mais a esse pensamento momentâneo da perda, que dê mais significado a algo que já é tão significante: a vida. Em uma primeira análise, sem incorporações filosóficas profundas, "ir para um bom lugar" traz duas possibilidades, não excludentes. A primeira é uma espécie de recompensa pela vida vivida sob a égide do bem; a segunda, não tão graciosa, coloca sobre a vida vivida uma espécie de peso, como se o...

8 anos...

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Oi filha! 8 anos... Ainda existe o sentimento de ausência, aquela drummondiana (falei dela ano passado), impregnada na alma, sem chances de mudança. Não causa tristeza, mas saudades sim, imensas e de tudo! Soa repetitivo (também falei disso algumas vezes), eu sei, mas sua falta é sentida todos os dias, repetidamente, insistentemente! Os sentimentos também, que posso fazer... "As pálpebras limpam os olhos de poeiras.  Que pálpebras limpam as poeiras do coração?"  MIA COUTO traduz com exatidão aquilo que se passa em mim depois de 8 anos... Tem dias, muitos dias, sabe filha, que ainda não acredito ou não quero acreditar... E, confesso, me revolto! Revolta silenciosa, que aos poucos se abranda, restando, como consolo, imaginar como seria ter você por perto, fisicamente. Deste sonho emana sempre coisas belas: um belo passeio em um lugar novo (sempre gostamos), sua relação com sua filha (cada dia mais parecida com você), você brava com algum exagero meu (como sempre), o cuidado ...

Sala 60

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Todo ano o fato se repete... Mesmo assim, a cada ano - a cada instante na verdade - são muitas as novidades! É preciso ter olhos que veem para vê-las e separar o essencial, como ensinou Alberto Caeiro :  “O essencial é saber ver. Mas isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender. Procuro despir-me do que aprendi, procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos..." . Aquilo que elegemos como essencial constrói nossa alma! Demorei entrar, embora sempre estivesse a caminho... Não relutei, mas me dei o tanto de tempo que me foi solicitado esperar, nem mais nem menos. A porta de entrada, verde, mais larga e menos robusta que da última vez, se abriu lentamente, como lenta foi a subida da escadaria até ela. Rangeu um pouco, verdade, e a luz, que atrevida entrou primeiro, fez se mostrarem os detalhes daquele grande cômodo... Algo como uma sala enorme, com janelas em todas as paredes,  sempre abertas, sempre per...

A gente precisa se ver mais

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É compreensível que o tempo mude as coisas... " Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia... ", já disseram os poetas  Lulu Santos/Nelson Motta . Está certo... Mas algumas coisas não obedecem a essa regra, não mudam.  São aqueles apresentadas à nossa alma no início da sua formação, lá pelos tempos da infância. E como são vigorosos os conceitos adquiridos lá... Duram a vida inteira, não tenho dúvidas. A amizade é prova incontestável deste fato. Depois de mais de 40 anos, na média, um grupo infanto-juvenil se reuniu através da modernidade tecnológica. Faço parte desse grupo... E revendo as conversas, não são pessoas de 60 anos conversando; são, sim, jovens de 16-17 anos batendo papos de tempos idos. Claro, falamos de assuntos de agora, mas somos amigos da infância, da juventude, se curtindo depois de 40 anos de ausências. Imaginem a alegria que é... Sendo sincero ao extremo, não exercitamos a amizade nestes 40 anos que nos separaram fisicamente, não nos moldes nor...

Janelas

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Demoro  a fechar janelas  porque me dói a vida  entre dentro e fora.  Meu gesto lento,  sem antes nem depois,  desconhece se abre ou se fecha  a janela de uma outra janela.  Sem longe nem perto,  entre sombra e além,  na casa onde meu corpo começa,  sou eu mesmo a terra que contemplo.  Depois do vidro,  perdida da sua própria imagem,  a paisagem ainda mora toda em mim.  E eu, já, nela. (MIA COUTO)