Uma crônica sobre a partida de minha mãe A morte de uma mãe tem uma maneira muito particular de nos aproximar daquilo que somos. Não importa quantos anos tenhamos, quantas experiências a vida nos tenha proporcionado ou quantas vezes tenhamos acreditado que aprendemos a caminhar sozinhos. Há, na partida de uma mãe, algo que nos devolve à infância, àquele tempo em que o mundo parecia caber na segurança de seus braços. Quando ela parte, não perdemos apenas alguém que amamos; perdemos também uma referência silenciosa de nossa própria existência. E, de repente, percebemos que uma parte de nossa história acaba de se transformar em memória. Imagino a vida como o voo de um passarinho que, um dia, deixa o ninho para descobrir o mundo. Atravessa os anos enfrentando ventos favoráveis e tempestades, constrói seus caminhos, estabelece vínculos e espalha suas sementes. Assim também é a existência de uma mãe: uma longa travessia em que tantas vezes o próprio desejo fica em segundo plano p...
Que caminhos seguiremos no minuto seguinte, na hora seguinte, no dia ou ano seguinte? Difícil responder... Podemos imaginar que os passos são fruto do acaso ou de um destino pré-estabelecido. Ou nada disso! No caso do destino, alguém preparou, pois da infância não vislumbramos passos a perder de vista. É uma discussão infrutífera, na minha opinião, querer chegar a um consenso: temos um destino, já prontinho, ou traçamos nosso caminho com as escolhas, inicialmente não nossas, e suas consequências? Particularmente, fico com a última opção... Mas, calma, respeito a primeira... Mais que isso, respeito quem nela acredita. Talvez a grande inquietação humana não seja descobrir o caminho, mas compreender quem é o caminhante. Antes de qualquer destino, existe uma consciência que hesita, deseja, teme e escolhe. E toda escolha, por menor que pareça, modifica não apenas o rumo da viagem, mas também aquele que viaja. Caminhar é, sobretudo, transformar-se. Fernando Pessoa escreveu que ...
Talvez por isso Carlos Drummond de Andrade tenha escrito que “lutar com palavras é a luta mais vã”. Ele sabia que cada frase é uma pequena batalha. As palavras escapam, mudam de sentido, resistem. Às vezes passamos minutos — ou horas — tentando encontrar um único termo que pareça exatamente o que queríamos dizer. E, ainda assim, continuamos tentando. Porque há algo dentro de nós que insiste em sair. Pensamentos, memórias, pequenas observações da vida que ficam pedindo forma. Escrever acaba sendo uma tentativa meio desajeitada de organizar o mundo dentro da cabeça. O curioso é que, muitas vezes, escrever não nasce do domínio das palavras, mas da necessidade delas. Rubem Alves gostava de dizer que escrevia para entender o que pensava. Como se o pensamento fosse um novelo embaraçado e o texto fosse o jeito de ir puxando o fio com calma. Quem escreve conhece bem esse ritual: cortar frases, apagar ideias, recomeçar parágrafos inteiros. Há textos que parecem nascer leves, mas a m...
Que assim sejam todos os dias! Com céu azul ou cinza.
ResponderExcluirMaravilhoso
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