Minha Lara, Hoje o calendário insiste em me lembrar: dez anos. Dez anos desde que o mundo ficou mais silencioso e meu peito mais apertado. Mas, aqui dentro, você nunca partiu. Você caminha comigo nos dias claros e se senta ao meu lado nos dias escuros. É como se a vida tivesse criado um fio invisível entre nós, e por ele envio todos os dias a minha voz, o meu amor, o meu abraço. Lembro-me do seu riso, que era como água correndo em pedra limpa — leve, livre, impossível de segurar. Guardo a sua voz como quem guarda um segredo precioso, daqueles que a gente só compartilha com a alma. E às vezes, quando o vento bate de um jeito especial, eu quase consigo ouvir você me chamando, certo de que “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”, como disse Drummond. O tempo, filha, é um professor estranho. Não me ensinou a esquecer, nem quero que ensine. Ele apenas me mostrou como viver com essa saudade que é mais companheira que inimiga. Ela se senta comigo à mesa, me acorda...
Talvez por isso Carlos Drummond de Andrade tenha escrito que “lutar com palavras é a luta mais vã”. Ele sabia que cada frase é uma pequena batalha. As palavras escapam, mudam de sentido, resistem. Às vezes passamos minutos — ou horas — tentando encontrar um único termo que pareça exatamente o que queríamos dizer. E, ainda assim, continuamos tentando. Porque há algo dentro de nós que insiste em sair. Pensamentos, memórias, pequenas observações da vida que ficam pedindo forma. Escrever acaba sendo uma tentativa meio desajeitada de organizar o mundo dentro da cabeça. O curioso é que, muitas vezes, escrever não nasce do domínio das palavras, mas da necessidade delas. Rubem Alves gostava de dizer que escrevia para entender o que pensava. Como se o pensamento fosse um novelo embaraçado e o texto fosse o jeito de ir puxando o fio com calma. Quem escreve conhece bem esse ritual: cortar frases, apagar ideias, recomeçar parágrafos inteiros. Há textos que parecem nascer leves, mas a m...
Não tenho, neste momento, ideia alguma do que escreverei hoje... Talvez pela aflição de um sentimento que tomou posse do meu ser, como se tivesse atado minhas pernas (não me deixa sair do lugar), atado meus braços (não me deixa acenar por socorro), atado minha boca (não me deixa gritar), atado minha alma (perdi o ânimo)... Mas não conseguiu atar minhas mãos nem meu cérebro (não perdi a racionalidade), por isso escrevo. Mas antes de tudo, confesso: escrevo para mim, sem egoísmo. Se alguém ler e aproveitar alguma coisa, satisfeito ficarei. Mas ao contrário, caso não consiga atingir ninguém, paciência! Como disse Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.” Quando digo aflição é na verdade falta de entendimento. Claro, respeito todas as formas de viver, com culturas, religiões, línguas, opções sexuais e tantas outras diferenças que possa haver. E advirto: respeito dentro das minhas condições intelectuais e d...
Que assim sejam todos os dias! Com céu azul ou cinza.
ResponderExcluirMaravilhoso
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