A pele e o casaco
Há frases que passam por nós como um vento ligeiro, sem deixar vestígios; outras, porém, encontram abrigo em algum lugar profundo da consciência e ali permanecem, inquietando-nos. No filme O Cântico dos Nomes, uma dessas frases nos convida a pensar sobre a condição humana: “Pele é uma questão de etnia, religião é um casaco. A pele você não troca, o casaco sim.” Há, nessa comparação aparentemente simples, uma verdade que talvez tenhamos passado séculos tentando compreender: nascemos diferentes, mas transformamos nossas diferenças em razões para nos afastarmos uns dos outros. E, não raro, fazemos daquilo que deveria nos aproximar um instrumento de separação..
A pele é a primeira identidade que o mundo nos atribui. Antes mesmo de pronunciarmos uma palavra, antes de manifestarmos qualquer crença ou revelarmos nossos sentimentos, já somos vistos, classificados e, por vezes, julgados pela cor que carregamos. Não escolhemos nossa origem, assim como não escolhemos o lugar onde abrimos os olhos para a vida. Ainda assim, há quem se considere superior por causa de uma característica que não conquistou, como se a natureza lhe tivesse concedido um privilégio e não apenas uma condição. É estranho pensar que a humanidade, tão orgulhosa de sua inteligência, ainda precise aprender que nenhuma tonalidade de pele torna alguém mais digno, mais humano ou mais merecedor de amor.
A religião, por sua vez, é comparada a um casaco. Podemos vesti-lo, conservá-lo, modificá-lo ou, em algum momento da existência, substituí-lo por outro. Para muitos, ele aquece a alma, oferece abrigo diante das incertezas e ilumina caminhos em meio à escuridão. Para outros, o conforto está em não vestir casaco algum. E nisso não deveria existir motivo para hostilidade. O problema começa quando nos esquecemos de que o casaco que nos protege não precisa ser o mesmo que protege o outro. Quando uma crença deixa de ser um caminho pessoal para se transformar em instrumento de julgamento, quando a fé se considera proprietária exclusiva da verdade, o que deveria aquecer o coração passa a alimentar o incêndio da intolerância.
Talvez o grande equívoco da humanidade esteja em confundir identidade com superioridade. Somos diferentes na cor, na língua, na cultura, nas crenças e nas maneiras de compreender o mistério da existência. Entretanto, compartilhamos fragilidades que não distinguem etnias, dores que não respeitam fronteiras e uma necessidade quase universal de sermos acolhidos. O sofrimento de uma mãe (ou de um pai) que perde um filho não tem religião; a lágrima de quem sente fome não tem nacionalidade; o medo de quem foge da violência não escolhe a cor da pele. Diante dessas experiências, as fronteiras que erguemos entre nós parecem perder consistência. Resta o ser humano, despido de suas certezas, procurando uma mão que o ampare.
Penso que amadurecer, individual e coletivamente, talvez seja aprender a olhar para o outro sem a necessidade de vesti-lo com nossas próprias convicções. Não precisamos acreditar nas mesmas coisas para respeitar a dignidade alheia, assim como não precisamos compreender inteiramente alguém para reconhecer sua humanidade. A convivência não exige uniformidade; exige disposição para aceitar que o mundo é maior do que a nossa maneira de enxergá-lo. E se a religião pode ser um casaco, que cada um tenha liberdade para escolher o seu, desde que não pretenda obrigar o vizinho a vestir o mesmo, nem use o próprio para esconder a crueldade que pratica em nome de Deus.
No fim das contas, talvez a vida nos ensine que chegaremos ao último dia levando muito menos do que imaginamos. Os títulos, as convicções inabaláveis, as disputas e as certezas que julgávamos eternas ficarão pelo caminho. A pele, essa que nos acompanha desde o nascimento, voltará à terra, sem distinção entre as cores que um dia dividiram os homens. Quanto aos casacos, cada um deixará o seu à porta da eternidade. E quem sabe, nesse instante derradeiro, compreendamos que nunca foi a cor da pele nem a religião que nos tornou verdadeiramente humanos, mas a capacidade de reconhecer no outro alguém tão vulnerável, tão imperfeito e tão merecedor de amor quanto nós mesmos. Afinal, não é o casaco que vestimos que revela a grandeza de nossa alma, mas a maneira como tratamos aqueles que vestem casacos diferentes dos nossos.
É isso!
Uberlândia, 20.10.26
Como sempre cirurgico esse meu Amor!
ResponderExcluir