ESTRADAS E DESVIOS
“Pois minha imaginação
não tem estrada.
Eu não gosto
mesmo de estrada.
Gosto de desvios e de desver.”
(Manoel de Barros)
Houve um tempo em que meus dias começavam com uma missão simples: levar o almoço de meu pai, agricultor arrendatário, até o lugar onde estivesse trabalhando. Eu tinha por volta de dez anos e a responsabilidade cabia inteira sobre meus ombros de menino. A marmita seguia firme em minhas mãos; o relógio, invisível, marcava a urgência de voltar antes das onze para tomar banho, almoçar e ir à escola. Chovesse ou fizesse sol, aquele percurso de alguns quilômetros era parte da vida, como se a infância também tivesse suas obrigações silenciosas.
Para chegar ao Sítio do Joãozinho havia dois caminhos. Um era curto, reto e atravessava um pasto onde, muitas vezes, o gado me esperava como um desafio maior do que realmente era. O outro fazia um desvio pelo cafezal do senhor Pedro Redondo, homem cujo sobrenome sempre me despertou curiosidade. Entre o medo e a tranquilidade, quase sempre escolhia o desvio. Sem saber, eu já aprendia uma lição que só muitos anos depois faria sentido: nem sempre o caminho mais longo é o mais difícil.
Entregava a marmita, bebia água fresca numa mina e voltava depressa. Pelo menos era essa a recomendação. Mas recomendações adultas nem sempre vencem a curiosidade infantil. No retorno, havia uma velha mangueira à beira da estrada que parecia existir apenas para me esperar. Sentava-me à sua sombra, colhia uma manga madura quando a sorte ajudava e cantava, sem plateia e sem vergonha, Menino da Porteira, na voz inesquecível de Sérgio Reis. Hoje compreendo que aqueles minutos eram um raro e precioso exercício de solidão feliz.
Foi também debaixo daquela árvore que aprendi, sem conhecer a palavra, o significado da contemplação. Eu apenas olhava. Observava a estrada principal, as cercas, as porteiras, os pequenos sítios, o eucaliptal, as pastagens e um caminho que desaparecia no horizonte, levando a lugares que minha imaginação completava. Cada entrada parecia esconder um mundo inteiro.
Cada porteira sugeria uma história. Hoje percebo que contemplar é justamente isso: permitir que o olhar caminhe onde os pés ainda não foram.
As pessoas daquele lugar também faziam parte da paisagem. Eram simples, discretas, acolhedoras. Bastava um "bom dia" trocado com algum caminhante para que o medo diminuísse e a estrada parecesse mais segura. Talvez a infância seja exatamente esse tempo em que acreditamos, naturalmente, que a bondade mora nas pessoas comuns. Nunca me aconteceu nada de ruim por ali. Ao contrário, foi naquele ambiente de simplicidade que aprendi algumas das maiores lições da vida.
Com o passar dos anos, compreendi que aquela estrada era muito mais do que um caminho de terra. Ela se transformou numa metáfora silenciosa da existência. Havia uma estrada principal e inúmeras entradas; havia um destino imediato e incontáveis possibilidades. Uma vida também é assim: seguimos adiante, mas, de tempos em tempos, uma porteira nos convida a mudar de direção. Talvez seja a alma quem registre essas imagens aparentemente banais para revisitá-las quando estivermos prontos para entendê-las.
Naquele tempo eu sabia apenas de uma coisa: estudar seria meu caminho. Era a estrada que eu acreditava capaz de transformar minha realidade. Vieram os sacrifícios, as dificuldades, o colégio, a faculdade e a disciplina de quem caminhava olhando sempre para a frente. Até que surgiu uma porteira inesperada. Chamava-se Geologia Histórica e era conduzida pelo inesquecível professor Paulo Martins. A disciplina cumpriu sua ementa; quem não a cumpriu fui eu. Saí dela diferente. Passei a desconfiar das respostas prontas, a fazer perguntas e a descobrir que pensar também é um modo de caminhar.
Foi então que compreendi por que certas lembranças insistem em voltar. Elas não retornam pela mente, mas pela alma. E, quando chegam, trazem consigo uma saudade que não dói; apenas ilumina. Por isso me reconheço nestes versos de Fernando Pessoa:
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Desde então, descobri que a contemplação muda não apenas aquilo que vemos, mas também quem vê. Ela acrescenta beleza às experiências que a alma escolheu guardar e suaviza aquelas que a mente insiste em conservar. Talvez seja isso que alguns chamem de meditação. Eu continuo preferindo chamá-la de contemplação, porque foi olhando demoradamente uma estrada de terra que aprendi a conversar comigo mesmo. As experiências felizes não desejamos "desvê-las"; ao contrário, voltamos a elas para que se tornem ainda mais belas. As difíceis não desaparecem, mas podem perder parte do peso quando iluminadas por novas paisagens, novos afetos e novos desvios.
Por isso, quando hoje releio minha própria história, percebo que nunca fui feito para caminhar apenas em linha reta. Feito água, contornei pedras, aceitei desvios e encontrei pessoas, ideias e mundos que jamais conheceria se tivesse seguido apenas a estrada principal. E, enquanto caminho, lembro-me também de Toquinho e Vinícius:
Nessa estrada não nos cabe conhecer
ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem
ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.
Ninguém sabe bem ao certo o que determina uma pessoa usar mais ou menos desvios apresentados pelos caminhos aparentemente retos que trilha. Tenho certeza que eu nasci assim, para usar desvios. É por isso que me reconheço em Fernando Pessoa (ele de novo!):
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi!
É isso!!!
Como sempre, mais um texto que leva à reflexão (ou será à contemplação?)
ResponderExcluirCaminhos, desvios, encontros re encontros...e volto a ver. Parabéns pela leveza do texto e dos sentimentos da alma. Parabéns!
ResponderExcluirAi, que texto delicioso.
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